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Um resgate dramático.

As aventuras dos Condoreiros estão chamando a atenção dos pilotos, tanto pela qualidade das aeronaves e cenários utilizados, quanto pela dramaticidade e dificuldade. Neste mês, o Cmdt João Marinheiro trouxe de volta, de uma remota região da Guyana, o velho "Corvo", o Hércules lendário do Cmdt Frederick Doorman. A aeronave agora está passando por uma completa reforma em Santarém, na base da Cargo Norte. O resgate, entretanto, foi mais complicado que o previsto. Vamos acompanhar o excelente relato do Cmdt Marinheiro.

Relato do vôo de Novembro dos Condoreiros
"O Resgate do Corvo"

01/11/99 (23:00hs locais) - "Chegada" - Chegamos à Saul, eu meu copiloto e a equipe de manutenção. Imediatamente procuramos Cmdt Frederick Doorman, após uma rápida conversa começamos a montar nossa estratégia, pois teríamos pouco tempo. Inicialmente tomamos conhecimento da situação da aeronave: Motor 1 avariado, sem condições de operação e alguns aviônicos inoperantes. A aeronave encontra-se parada há alguns meses, apesar de seus motores serem ligados diariamente. Solicito a equipe de manutenção do SEMOB que inicie o cheque na aeronave. Monto o plano de vôo com auxílio do experiente condoreiro Frederick. O Plano é o seguinte: decolaremos as 05:20hs da manhã seguinte, subiremos para 5000ft o que nos dará uma certa tranqüilidade em relação ao relevo. Após a decolagem curva à esquerda e proa direta para Boa Vista / RR, único auxílio que usaremos. A navegação, que será por GPS, será inteira feita pelo Buffalo da Cargo Norte pois não poderemos confiar nos aviônicos do C-130. Nós apenas o seguiremos. Segundo o Metar da região teremos bom tempo pela manhã com possibilidade de chuvas isoladas.

02/11/99 (02:00hs locais) - "Soluções" - Cheques realizados, nos deparamos com um problema: o quanto de combustível usar?. Faço cálculos e cálculos e a dificuldade é imensa, pois temos que decolar com o menor peso possível, devido a falta de um motor. Fizemos uma pequena reunião e decidimos. Vamos depenar o C-130 afim de ganharmos uma maior capacidade de combustível. Rapidamente nossa equipe de manutenção começa o serviço: desmonta o que for possível e coloca no Buffalo. Ajudo outros integrantes a carregar o Buffalo com os pertences do condoreiro. Peso aliviado, resolvo: serão colocados 6000 galões, algo em torno de 65% da capacidade dos 4 tanques, que é de 9226 galões.

02/11/99 (04:20hs locais) - "Análise" - Iluminamos a pista com o auxílio das duas aeronaves para analisar a área útil de decolagem. Percebo que podemos usar alguns metros a mais, pois antes da cabeceira existe uma área desimpedida de mais ou menos 50mts. Excelente, esses 50mts serão muito valiosos.

02/11/99 (5:00hs) - "Momentos finais" - Aeronave já alinhada, abastecida, plano de vôo na mão, iniciamos os cheques. Nunca fiz um checklist com tanto empenho. Queria testar tudo, ter certeza do que estávamos fazendo. Começo a simular a rolagem na minha cabeça e penso: a aeronave terá uma forte tendência a guinar para a esquerda, então inicialmente vou acelerar os motores 2 e 3 e segurar nos freios. Quando o condor estiver vibrando, solto os freios e gradativamente vou acelerando o motor 4. Desta forma terei um pouco mais de controle nos pedais.

02/11/99 (05:20hs) - "A Decolagem" - Full Power, Flaps em 30% e começamos a rolar. Minhas pernas tremem e não paro de suar. A sensação de estar perto do "céu" é péssima. Meu copiloto canta as velocidades e por volta dos 100 nós começo a puxar. Na hora em que a roda dianteira sai do chão sinto uma forte guinada para a esquerda. Começamos a ir em direção ao morro. Dou comandos para a direita e logo consigo voltar ao eixo da pista. Com 120 nós estamos fora do solo, com o sinal sonoro de stall soando. Imediatamente baixo o nariz e mantenho a altitude necessária apenas para passar a copa das árvores que estão logo a minha frente. Está muito difícil voar reto, só consigo com a ajuda do copiloto atuando no manche. Resolvo então começar a utilizar o combustível do tanque da esquerda, pois desta forma (imagino eu) eu poderia ganhar um pouco de alívio no manche e não forçaria tanto a hidráulica da aeronave. Efetuo duas órbitas sobre o aeródromo subindo lentamente. Logo vejo o Buffalo balançando as asas. Sinal de que está pronto para prosseguir. Começa a perseguição ao Buffalo. Combinamos não usar rádio para não dar qualquer sinal de que estávamos voando.


acima: após a decolagem. à esquerda, o motor 1 embandeirado.

02/11/99 (06:00hs) - "Cruzeiro" - Faltam 341nm e mais ou menos 1 hora e 33 min para Boa Vista /RR. Mantenho uma velocidade de cruzeiro de aproximadamente 250 nós com os motores a 75%.

02/11/99 (06:30hs) - "Cruzeiro" - Subo para 6000 pés devido a proximidade em que estamos do relevo. Já gastamos 2968 galões, faltam 252nm e aproximadamente 1 hora e 3 minutos. Estamos indo bem e dentro de nossa programação, apesar do alto consumo de combustível. Pelos cálculos poderemos chegar lá sem problemas. Ainda bem que coloquei o máximo possível, pois não há nenhum aeródromo de alternativa nas proximidades.

02/11/99 (06:55hs) - "O problema" - De repente, notei que a potência do motor quatro começa a cair. Imediatamente olho pela janela e vejo o pior: o motor está em chamas! Corto o motor e combustível. Com a sorte que nos cercou até agora, o fogo se apaga sozinho. (Ufa!!). Acelero os motores restantes (2 e 3) para 85% e com um bom vento de cauda de mais ou menos 40 nós consigo manter 230 nós. Até agora eu e meu companheiro estamos fazendo turnos de meia hora no controle dos instrumentos dos motores enquanto o outro cuida da navegação. Apesar do problema a aeronave continuava muito bem. Durante o incêndio faço um arriscado contato de rádio (apesar da restrição) com o Buffalo que tirou fotos e analisou de fora a estrutura da aeronave, não constatando problemas maiores.


acima: o "Corvo" com o motor 4 em chamas.


02/11/99 (07:30hs) - "Boa Vista" - Graças a Deus estamos chegando, mantenho ainda a proa de Boa Vista / RR faltando 37nm, aproximadamente 9 minutos. Mantenho agora 2000 pés e a operação continua normal, apesar da temperatura dos motores estar um pouco alta, mas nada preocupante. 10m antes de Boa Vista, curva a direita, proa 320º por 18nm, depois curva a direita, proa 070 por 16nm e finalmente nova curva a direita, proa 156º, para alinharmos com a pista. Optei fazer uma aproximação com distâncias maiores, desta forma as curvas poderão ser feitas com graus de inclinação menores, evitando surpresas.


acima: o Hércules, em vôo bimotor, se aproximando de Boa Vista.


02/11/99 (07:55) - "Pouso" - Estou alinhado com a pista. Trens baixados. Flaps atuando. O Buffalo já deixou a minha dianteira e limpou o caminho. Mantenho uma razão de descida bem leve para poupar os motores. Vou procurar tocar bem no começo da pista, pois o meu reverso é de apenas dois motores, o que diminui a minha capacidade de frenagem. Passo a cabeceira e toco a pista exatamente as 07:57hs. Para a minha surpresa usei menos de ¾ da pista. Rapidamente livro a pista de terra e subo na grama, para livrar a pista ao nosso fiel guia. Estaciono ao lado do pequeno hangar. Motores desligados, aguardo o Buffalo que trazia nosso ilustre passageiro e seus pertences. Abandono a aeronave e enquanto o pessoal descarrega as peças tiradas do C-130, arrumo um canto no assoalho do Buffalo, pego um cobertor e só acordo quando chegamos no SEMOB. Descanso bem merecido depois de uma noite sem dormir e tanto nervoso passado.


acima: o pouso, na fazenda São Marcos, próximo à Boa Vista.

Conclusão - Nosso ilustre passageiro seguiu para Fortaleza, onde a Ceaero, através do MarcosVP, ofereceu todo o auxílio necessário para sua recuperação. Eu continuo meus vôos pela empresa e sempre pronto para qualquer missão eventual. Hoje quase 15 dias após a nossa aventura, estava em Pinto Martins para realizar um vôo pela Litorânea, quando encontro o nosso Co-patrão Cmdt. Macedo que me diz: "aguarde, tenho mais uma para você mês que vem." Penso: "só espero que não seja para buscar um condoreiro perdido na lua.".

(por João Marinheiro)




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