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TRANSLADOS
A incrível viagem do "Dragão do Mar"

                  Este translado já estava pronto há alguns meses e esta história era de conhecimento apenas dos membros do conselho. Agora, podemos contar a todos, como se deu a verdadeira história do translado do MD-11 PT-CMD. Acompanhem.

"Long Beach, 11 de dezembro de 1999.

                      Já estávamos, eu, o Cmdt Macedo e o Cmdt Grille nos EUA. Saímos de Fortaleza no dia 09, no Hawker da Litorânea, pilotado pelo Cmdt Ronaldo Brum, que resolveu fazer o vôo por puro prazer, sem ganhar hora nenhuma. Apesar dos protestos do Cmdt Paraízo, que tinha agendado um vôo para Fernando de Noronha com as Sheilas do Tchan, decolamos na madrugada de quinta-feira. O vôo foi tranqüilo, viemos jogando conversa fora, paciência, tomando cerveja, até que eu lembrei aos meus sócios que nós teríamos uma chatíssima agenda cheia de coquetéis e lançamentos em Long Beach. Perguntei se eles tinham trazido terno..."- claro, chefe!", eles responderam. Tudo bem.

                      Já em Long Beach, fomos nos dar conta que os três tinham trazido ternos pretos. Resultado: Mr. Smith, o diretor da Boeing que está responsável pela entrega dos nossos MD-11 perguntou se tínhamos saído do filme MIB...enfim, coquetéis, aquela bebida toda, aquela comida toda, estávamos no lançamento do Boeing 767-400 quando Mr. Smith me perguntou que caminho faríamos para o Brasil. Disse que não sabia. Então ele perguntou se poderíamos dar uma carona a ele e mais uma pessoa até St. Louis. O Cmdt Grille, que fez um período de treinamento naquela cidade, adorou a idéia. Disse que tinha umas "amigas" para visitar. Bem, chegando ao hotel, marquei com o pessoal na manhã do dia seguinte...nem ia dar tempo de se recuperar da farra...

- Galera, as 08:00 em frente a portaria...
- O quê? Putaria, putaria???, falou o Grille...
- Não, Grille, esquece (o Grille é míope, não ouve muito bem...)

                          Às 08:45 estávamos entrando no Daugherty Field, o aeroporto de Long Beach. Nos identificamos e fomos direto para o pátio, onde o "Dragão do Mar", o MD-11 Charlie-Mike-Delta nos esperava em posição de sentido, garboso e orgulhoso. Os Cmdts Macedo e Grille embarcaram logo para iniciar os checks, enquanto eu despachava os últimos documentos da aeronave. Logo depois, Mr. Smith e sua filha Mary...por sinal, uma bela filha. Uma menina de seus 17 anos, com uma carinha fechada e um ar bem rebelde...uma grande boina na cabeça e um walkman no ouvido. Nos gritou "Hi!" e subiu ao avião. Logo depois, eu notei que, com Mr. Smith, subiam três caixas de "Havana Club", o melhor Rum do mundo e um produto proibido nos EUA. Por isso a "carona"...

Todos a bordo, perguntei aos Cmdts: - E aí, terminaram a checagem?
- O quê? Sacanagem, sacanagem??? Diz o Grille...
- Não, Grille, esquece...

                 Checks concluídos, assumi o assento direito, deixando o comando para o Cmdt Macedo. Motores girando, começamos o táxi. O Grille foi mostrar a aeronave aos visitantes, detendo-se longo tempo nos dormitórios no deck inferior, de onde, aparentemente, a menina Mary não subira. Chegamos no ponto de espera, últimos checks, PA configurado, alinhamos na Rwy 12. Seriam três horas até St. Louis, no estado do Missouri, USA. E por fim, mandamos todo mundo rezar e rolamos...

Decolagem às 10:00 local (18:00 GMT). Aproamos o VOR Riverside (RAL) e iniciamos a subida para o FL390.

                  Já em cruzeiro, o Cmdt Grille nos chama para abrir uma das caixas de Havana Club com Mr. Smith. Havia umas cocas geladas na galley, eles resolveram fazer umas cubas. Como eu já conhecia o efeito maligno daquele rum levíssimo, resolvi declinar, fazendo Mr. Smith me prometer uma garrafa. O Grille insistiu e o Cmdt Macedo cedeu, e me deixou na cabine. Distraído, pensando na vida, o tempo foi passando até que eu percebesse o pior: já havia ido uma caixa inteira de Havana Club! A gente bebe aquilo sem perceber e quando vê...um abraço. Abri a cabine e dei de cara com três senhores gargalhantes, fazendo campeonato de par-ou-ímpar! Não tive dúvida: estava diante de uma "pilot incapacitation"...

                    E agora? Como fazer para pousar sozinho o MD-11 em St. Louis? Primeira providência: tranquei a porta da cabine por dentro. Uma idéia, uma idéia...uma idéia...já sei!!! Mary!!! A filha do Sr. Smith! Pô, filha de um diretor da Boeing, alguma coisa ela deve saber de avião. Ela estava no deck inferior...liguei o comunicador para lá e pedi para ela subir a cabine. Mas ela não subiu. Pedi de novo. E nada. Então lembrei: o walkman. Ela não deve estar ouvindo. E agora? Como vou sair da cabine com esses três papudinhos aqui na minha porta??? Não tive jeito: saí do cockpit, mas amarrei a porta com um elástico (sempre tenha um elástico com você...) e passei por eles, aceitei um copo de cuba (agora eu ia precisar...) e desci ao dormitório. Mary estava deitada sacudindo as pernas e fazendo gestos estranhos e ritmados. Devia estar ouvindo Mettalica...

- Mary! Você precisa vir aqui em cima...estou com um problema...

                Ela fez uma cara feia, falou alguma coisa como "xf$#*%!+ sucks!!!" e me acompanhou. Entrei com ela na cabine, antes que os três conseguissem desamarrar o meu elástico. Sentei-me no assento esquerdo e ela no direito. Ela deu um sorrisinho maroto e perguntou:

- Haahn...you take me here ‘cause you wanna fuck me???
- Não! Eu disse. Eu preciso que me ajude a pousar esse avião...

               Ela arregalou os olhos, parou um instante e disse: Yeah!!! Cool!!! Nisso, atirou a boina longe e eu vi, aterrorizado, aqueles cachos loiros caindo pelo seu pescoço. E então eu pensei: "- loura? Oh! SHIT!!!"

                 Mas, não tem tu, vai tu mesmo. Perguntei se ela sabia alguma coisa da cabine. Ela disse: An, han! Aí, eu perguntei se ela já tinha visto alguém pousando um avião. Ela disse: An, han! Aí eu resolvi testar. Apontei para o climb e perguntei a ela o que era. Ela disse que era um medidor de passageiros...Eu disse: - o quê??? Isso é um climb...

- Ué? E avião escala montanha?
- Queridinha, - disse – vamos fazer o seguinte...você fica quietinha aí e faz só o que eu mandar...
- Assim não tem graça! E fez beicinho. – eu quero pilotar, pegar no manche...Senão eu não ajudo...
- Tá bom, tá bom. Então faz o seguinte. Fica olhando para fora. Se vier alguma montanha lá longe, você me avisa, sabe? ou um iceberg, tipo o Titanic, sabe?
- Aaah, sim! - disse ela. - Agora tá bom.

                      E assim fomos até a aproximação em St. Louis. Pedi que ela me lesse o checklist. Ela obedeceu, pois sabia ler. Então, eu fiz o contato com a torre, informei a posição e velocidade e fui fazendo a fonia. Pedi para ela ficar de olho no altímetro. E ela disse:

- Mas assim eu não vou ver o pouso...
- Vai sim. Vai me cantando as altitudes...
- Que música é essa?
- Não precisa cantar. Vai falando.
- Ah! É rap!!!
- Está vendo isso aqui? São os flaps. Quando eu for falando, você vai abaixando eles, trazendo aqui para trás...
- Para que serve isso?
- Para nada, para nada, só faz o que eu tô pedindo..., falei quase chorando...
- Ah, então eu não vou fazer. E cruzou os braços.
- Tá, bom, tá bom. Flaps são superfícies móveis do bordo de fuga da asa que servem para aumentar a sustentação, com a mudança do ângulo de arrasto na proporção da...
- Ih, ih...muito complicado...esquece...

Estavamos já no OM. O estridente alarme começou a apitar e ela ficou desesperada...

- God damn you, what fuck is that?
- Nada, é o OM...
- E o que é OM? O que você está me escondendo? A gente vai cair???
- Não, não, isso é o ...

                          De repente, começaram a bater na porta. Eram o Grille e o Macedo querendo voltar para o pouso e Mr. Smith perguntando o que eu estava fazendo com a filha dele na cabine...E aí foi o inferno! O alarme do OM, a menina choramingando, os papudos gritando e batendo na porta da cabine...e a porra da pista chegando. O microfone estava aberto e a torre perguntou:

- algum problema por ai, Mike Delta? Quer declarar emergência?

Querer eu queria, mas o que ia adiantar? Estava na final mesmo...

- torre, pede um café forte para a nossa saída...e uns pirulitos...

Mary estava pálida. Eu ia ter de pensar em tudo. Falei com a torre:

- faz o check de pouso para mim ai, que o bicho pegou...
- The bicho what???
- Forgot, forgot...just tell me the check list...
- Gear down....Ok!
- Flaps...Ok!
- Lower the speed....Ok!

                E assim foi, até o alarme do MM. Aí, Mary comecou a soluçar de verdade... E o povo batendo na porta cada vem com mais fúria...Nessa hora, o GPWS começou a cantar a altitude...e Mary:

- Quem está aí? Quem está aí???

                    A torre me ajudava heroicamente. Já tinha declarado emergência por si só, depois de dar boas gargalhadas e prometer que ia rezar pela minha alma, quando eu tive de confessar que eu só tinha uma menina loura de 17 anos me ajudando com o pouso. E o bravo CMD se aproximava da pista. Me concentrei no pouso quando Mary falou:

- quero ir no banheiro!!!
- De jeito nenhum, falei. Daqui, ninguém entra, ninguém sai. Já pensou se eu abro a porta? Aqueles três iam pular no meu pescoço...
- Mas tá apertado...
- Segura...
- Não dá...
- SE VIRA!!!!

Então Mary prendeu a respiração e ficou de costas para mim. Pelo menos ia ficar calada. E aí tocou o IM...

- A gente vai morreeeer...chorou ela...
- Shut up, docinho...CALA A BOCA!!!

              Trinquei os dentes, segurei a jacona e toquei a pista! O Mike-Delta assentou, e eu puxei o reverso. Ele obedeceu manso. Spoilers, auto-brake no 4....e o CMD pousou como uma pluma...

               Terminei o táxi, estacionei em um remoto, a torre me congratulou...e aí eu pensei: - bem vou ter de abrir a porta....fazer o quê? Cheguei para o lado e puxei a porta da cabine...Mr Smith entrou de sopetão, agarrou a filha e falou com a voz enrolada:

- Sweet honey...você ainda está vestida!
- Papai...
- O que foi?
- Eu não agüentei...tarde demais...

( -Putz! Pensei. Mijou no assento...)

Nisso, o Macedo e o Grille entraram apavorados! Só pensei em perguntar uma coisa...

Quem ganhou o campeonato de par-ou-ímpar?

( e eu ainda escondi três garrafa do Havana Club no compartimento de bagagem....)

 

St.Louis, 12 de dezembro de 1999.

                     Eram umas 2 da manhã quando o Grille retornou da farra. Disse que tinha ido num tal de "Pussy cat Lounge", depois num tal de "Pink Girls Place" e por fim, num lugar chamado "Blau-Blau"....

- Blau-Blau, Grille?
- É um botequim na 47th. Tem um caldinho de carne-seca com morango que é um espetác...
- ugh!!!

                   Tínhamos que decolar às 4 da manhã para chegar ainda dia na SEMOB. Para evitar problemas com translados, comemos um bagulho qualquer no aeroporto e dormimos no avião mesmo. Às 3, eu e o Macedo estávamos iniciando os checks, quando eu ouvi no corredor, o Grille cochichando alguma coisa com alguém. Pensei: - ué! Quem pode estar aí no corredor com o Grille? Pedi licença ao Macedo e fui conferir...Quando cheguei perto, eu vi uma criatura de cabelo ensebado, com uma enorme mochila puída e falando um dialeto estranho...

- Por Dios, marelito (ele sempre me chamava de marelito...), deja-me volver a Bracil com vosotros...

Não pude acreditar!!! Sim, era ele mesmo! Juanito em carne e osso!!! Mas o que ele estava fazendo dentro do CMD???

- É que eu achei o pobre lá no boteco – disse o Grille – e ele me perguntou se não podia voltar com a gente para o Brasil...
- Mas o que você estava fazendo aqui em St. Louis, Juanito?
- Bien, yo estaba reparando unas gaiolas de Rio...
- Ah, uns barcos do Mississipi?
- Si, por supuesto... – e me mostrou o que tinha na mochila: a velha solda de oxi-acetileno...

Após o reconhecimento do "clandestino", falei com o Grille: - olha, de olho nele. É gente boa, mas vive querendo consertar as coisas e aí já viu...

- Falou, chefe!
- Mas, presta atenção hein?
- O que? Penetração, penetração???
- Esqueçe, Grille....

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acima: prontos para decolar de St. Louis

                    Decolamos do aeroporto de Lambert, rigorosamente às 4h da manhã, na direção de Miami. Aproamos o VOR Cunninghan (CNG) e começamos novamente a subida para 39000 pés. Cheios de combustível, faríamos um "long run" direto para a SEMOB. O Grille conversava com o Juanito na primeira classe, contando a ele casos do Castelo das Moças de Beberibe. E então ouvi ele perguntando:

- E corriente? E batatiña? Tienen noticias de ellos?

             E assim ia o papo. A viagem era longa e entediante. Passamos pela Flórida, ao largo de Cuba e Porto Rico, em direção à Guyana Francesa. E finalmente entramos no espaço aéreo brasileiro, pelo Amapá. E viemos ao largo do Pará e entramos no Maranhão. Faltava mais ou menos uma hora para pousarmos quando eu tive a maldita idéia...Se arrependimento matasse...

- Grille! (o Grille e o Juanito cochilavam na primeira classe...em poltronas separadas, claro...) Aí, faz alguma coisa de útil e vê se deixaram alguma coisa na galley para a gente comer...

Meio dormindo, meio acordado, ele falou:

- tô indo, chefe, tô indo. Vamo lá, muchacho...e chamou o Juanito.

               Tranqüilo, fechei a cabine e vim conversando com o Macedo, quando daqui a alguns minutos, o painel do MD-11 virou uma árvore de natal!!! Piscava tudo! Luzinhas vermelhas, amarelas, verdes, azuis e roxas, apitos e trinados por todos os lados! Olhei para o Macedo, ele olhou para mim e nós dissemos juntos:

- O Grille!!!

          Falei com o Macedo para segurar a jaca e me levantei. Quando abri a porta, uma fumaceira invadiu a cabine. Um incêndio! Peguei o extintor e corri para a galley, na outra classe, entre a executiva e a econômica. Já entrei pela porta com o extintor destravado e procurei o fogo, quando...

- Marelito, marelito, (ele sempre me chamava de marelito)...no te procupes. Está todo controlado...
- O que diabos ouve aqui??? Perguntei...
- Veja bem – começou o Grille – é que não tinha nada para comer aqui...
- Sim...
- E aí – continuou ele - O Juanito tinha um pedaço de carne na mochila...
- Bife de chorizo, marelito...
- E AÍ???
- Bueno, nosotros empezamo una parrillada...
- Churrasco? Na galley????
- É, prosseguiu o Grille...tinha carne, pegamos uma das tampas de aço da pia e...
- Com o que vocês acenderam o fogo, seus animais??? Não! Não me digam que foi com...
- És um ron muy exquisito, marelito...muy bueno...
- MEU HAVANA CLUB!!! MEU HAVANA CLUB!!!

                Nem quis saber! Descarreguei o extintor em cima dos dois sob os protestos do Grille que aí não exergava mais nada mesmo e do pobre Juanito que reclamava que eu estragara seu bife, e voltei para a cabine.

- Macedo, imagina que aquelas duas antas estavam fazendo um churrasco na...
- Tarde demais, VP!
- Tarde demais o quê???
- Já declarei emergência...
- Ai!!! Que miiico...dá pra tomar uma Kaiser antes?
- Aqui só tem Havana Club...
- NEM ME LEMBRE DISSO!!!
- Mas o que foi que eu disse? Falei alguma coisa errada???

           O pouso na SEMOB foi praticamente normal. O Macedo resolveu proceder o toque, visto que minhas condições psicológicas não eram das melhores. E para explicar aquele cheiro de carne queimada para a brigada de incêndio? Mas, não importava. O "Dragão do Mar" estava em casa. O Macedo se despediu, ia para Fortaleza tirar uns meses de merecidas férias. O Juanito? Bem, liguei para o Paraízo, mandei vir o King Air e mandei entregar o paraguaio ao pai dele, numa mineração no interior da Bahia.

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acima: o "mike-delta" já na SEMOB, terminando o táxi.

- mis recuerdos ao corriente, Juanito.
- Gracias, marelito. Precisando basta llamar...
- Esquece, bicho...se manda...
- Adios!!! Gritou. E lá se foi ele...

E por fim: o Grille pegou a Kombi e partiu na direção de Beberibe. Ainda pude gritar...

- Vê se volta cedo...
- O que tem o Macedo??? Ele respondeu?
- Esquece, Grille...

                  Fica a lição, galera: nunca façam um translado de MD-11 com um comissário míope, três caixas de rum cubano, uma loira de 17 anos e um mecânico paraguaio. Pode ser muito perigoso...

n22_mary.jpg (13908 bytes)         Ah. Para ninguém achar que issto tudo foi mentira, aqui está uma foto que a própria Mary Smith me mandou...antes de pintar os cabelos de roxo...:-)

Um abraço a todos.
MarcosVP.

 

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